Os Tios Que Há Em Mim
Por existir um parentesco tão colateral, há tios que não cheguei a conhecer em vida. A lembrança destes é peculiarmente pictórica pois alguns dados biográficos se revelaram de forma velada. Cabe à imaginação suprir essas lacunas. Assim, percebi certas semelhanças com a minha pessoa que somente seria possível através do imaginário.
Por parte de mãe, este meu tio era leitor de Dostoievski e sempre foi visto tocando gaita. De caráter extrovertido, suas atitudes parecem ter sido pouco compreendidas em vida. Diria talvez que ele viveu como um personagem do livro do velho russo.
Por parte de pai, este meu tio foi músico de uma banda de relativo sucesso aqui no Recife. Soube recentemente ao me deparar com suas imagens, que muito novo ele foi o intermediário entre minha avó e São José no pagamento de uma promessa. Sua personificação é de uma coragem e criatividade que muito me inspira.
É difícil saber se essa transmissão de impressões se dá a partir de quando nos deparamos com a imagem ou se é algo sanguíneo. Conhecer nossas origens traz sentido e dá a sensação de pertencimento a um tipo de linhagem. Uma direção que se ramifica, mas que é fruto de uma mesma árvore, talvez até um mesmo solo. A impressão que passa é que o meu eu está além do que existe em mim, seja em imagem, em pensamentos, em oratórias…
Venho aqui fazer vênia e reforçar o memorial daqueles que fizeram a felicidade dos meus pais e de nossas famílias. Ser tio é criar paralelamente e compartilhar tanto carinho à prole do irmão quanto o destinado a este último.
Vinicius Meireles
14/07/10


agosto 29, 2010 às 9:04 pm
Na condição de irmão do querido e saudoso Zezinho Franco, seu tio, fiquei emocionado com o texto e a foto. Antigamente, as lágrimas caiam sobre o papel, agora caem sobre o teclado do Notebook. Obrigado, Vinicius.
outubro 9, 2010 às 12:04 am
Prezado Vinicius,
Conheço seu pai, trabalhamos juntos. Entre uma planilha de custos e outra, filosofávamos. Sei que ele escreve, mas eu não sabia de você. Confesso-me surpresa e impressionada, afinal você é tão jovem! Como consegue escrever com tanta profundidade e sentimento?! Li o seu texto em um único gole, depois outro e mais um. Agora sou eu quem ficou imaginando os escritos. Adorei.
Ana